segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Cinema nacional: o que é e pra quem é feito? - parte II

“Para o público brasileiro, cinema é cinema estrangeiro”, Jean-Claude Bernardet, teórico do cinema, cineasta e escritor brasileiro. Isso talvez se explique pelo terrível fato de que fomos acostumados desde sempre, a consumir o cinema estrangeiro. O espectador nacional foi criando ao longo do tempo, certos hábitos em relação aos filmes estrangeiros a que era submetido e agora, é muito comum apresentar defensivas quanto aos filmes produzidos aqui.

Bernardet defende a idéia de que o cinema no Brasil é feito por e para a população da classe média. “É ela quem faz funcionar o Brasil”. É a classe média que é responsável pelo movimento cultural brasileiro. E o que a classe média consome quando o assunto é cinema? Filmes estrangeiros em sua maior parte; aqueles que apresentam valores suscetíveis e que agradam com comédias leves e românticas.

O Brasil não tem o costume de se ver na tela. Seja por falta de filmes ou por que os poucos filmes aqui produzidos não chegam ao espectador de forma satisfatória – vide Cota de Tela 2008 do Ministério da Cultura. Há tempos que no Brasil importa-se desde alimentos e vestuário, até cultura, costumes e, por conseguinte cinema. Isso traz um grande prejuízo para nós brasileiros, que adquirimos a tendência de ver com outros olhos o que é produzido aqui. Para Bernardet “a produção estrangeira de rotina não passa, para a platéia, de divertimento. O filme nacional tem outro efeito. Ele é oriundo da própria realidade social, humana, geográfica, etc., em que vive o espectador, é um reflexo, uma interpretação dessa realidade (boa ou má, consciente ou não, isso é outro problema)”.

Alguns filmes com temática nordestina, durante a história do nosso cinema, tentaram mostrar as chagas da sociedade: o povo é explorado, não tem condições mínimas de vida, se o país evolui, não é de conhecimento do povo. Para Bernardet esses filmes são “aparentemente” feitos para o povo. No sentido de mostrar ao povo sua própria situação de angústia e levá-lo ou incitá-lo à reação. “Se os filmes não conseguiram esse diálogo (com o povo), é por que não apresentavam realmente o povo e seus problemas, mas antes, encarnações da situação social, das dificuldades e limitações da pequena burguesia e também, por que os filmes se dirigiam, de fato, aos dirigentes do país”.

O cinema brasileiro precisa, urgentemente, conquistar o seu público, tão acostumado às peliculas americanas e estrangeiras em geral. O público precisa ver-se na tela, fazer identificações com as personagens e ver nos filmes situações baseadas em elementos da realidade, de seu comportamento, vida, sociedade. Deve-se tornar ainda, o cinema nacional acessível ao seu próprio público; iniciativas de cineclubes e promoção de festivais de cinema nacional são uma ótima forma de tornar o que é nosso conhecido de nós mesmos. Senão, daremos certeza a afirmação de Bernardet: “Se o público não respondia aos apelos do jovem cinema brasileiro, seria por que a platéia não estava preparada para recebê-lo, por falta de maior gabarito intelectual de formação estética mais apurada”. Essa frase foi escrita em 1966. O público continua a espera. Não apenas de mais incentivos ao cinema nacional, mais ainda, de filmes que realmente nos convide ao contato com a nossa história.
Retirei a imagem do site Plenarinho (http://www.plenarinho.gov.br/), super bacana para fazer os pequenos aprenderem política. Fica como dica do dia!!

Um comentário:

  1. “Para o público brasileiro, cinema é cinema estrangeiro”. (Jean-Claude Bernardet, teórico do cinema)

    E eu pensando que essa frase era minha. Certo mesmo estava o velho Salomão quando escreveu que "não há nada de novo debaixo do sol". Tudo é eterna repetição. Masturbação de conceitos alheios.

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